Trump busca reaproximação com Kim, mas Pyongyang eleva o preço e Seul teme ficar de fora
Enquanto o presidente Trump tenta reativar o diálogo direto com Kim Jong Un, a Coreia do Norte responde endurecendo suas exigências em vez de fechar a porta, deixando a Coreia do Sul apreensiva com a possibilidade de ser excluída de negociações que afetam sua própria segurança.
Enquanto o presidente Trump tenta reativar o diálogo direto com Kim Jong Un, a Coreia do Norte responde endurecendo suas exigências em vez de fechar a porta, deixando a Coreia do Sul apreensiva com a possibilidade de ser excluída de negociações que afetam sua própria segurança.
A Coreia do Norte parece estar testando até onde pode pressionar o presidente Donald Trump antes de aceitar voltar à mesa com Kim Jong Un. Em vez de responder positivamente ao mais recente aceno de Washington, Pyongyang reagiu com exigências mais duras e uma demonstração de força militar. O impasse tem deixado autoridades em Seul incomodadas, já que temem que um eventual diálogo entre Trump e Kim volte a se desenrolar sem a participação efetiva da Coreia do Sul, mesmo que qualquer acordo resultante afete diretamente sua segurança nos próximos anos.
A tensão ficou evidente nesta semana depois que Trump ordenou ao Pentágono que encurtasse os exercícios militares conjuntos anuais com a Coreia do Sul, encerrados na sexta-feira, seis dias antes do previsto. Pyongyang não se mostrou impressionada. Horas depois de Trump afirmar que se reuniria com Kim ainda este ano, a Coreia do Norte disparou cerca de uma dezena de mísseis balísticos de curto alcance a partir da região de Pyongyang em direção ao mar, segundo o Estado-Maior Conjunto sul-coreano. Em comunicado divulgado pela mídia estatal, Kim Yo Jong, irmã influente do líder norte-coreano, descartou a redução dos exercícios como algo "que não merece comentário", insistindo que continuam sendo provocativos independentemente da duração.
Trump havia justificado a decisão em uma publicação nas redes sociais na segunda-feira, alegando que os exercícios eram caros e enviavam um sinal de hostilidade desnecessária a Pyongyang. Depois, afirmou ter contatado Kim para propor um encontro e ter recebido uma resposta positiva. Kim Yo Jong rebateu essa versão, dizendo não ter "conhecimento algum" sobre o contato, embora tenha reconhecido que a relação entre os dois líderes segue "excelente". A cientista política Kuyoun Chung, da Universidade Nacional de Kangwon, interpreta essa mensagem ambígua como uma tentativa de elevar o preço da reaproximação, não como uma recusa definitiva a uma cúpula.
No centro do impasse está uma exigência já conhecida de Pyongyang: o reconhecimento formal como potência nuclear antes de qualquer nova negociação, condição que Washington resiste em aceitar por comprometer décadas de política voltada à desnuclearização e por violar resoluções do Conselho de Segurança da ONU. O cenário atual contrasta com 2018 e 2019, quando a Coreia do Sul ajudou a viabilizar três encontros entre Trump e Kim, processo que desmoronou após o fracasso da cúpula de Hanói — ocasião em que Kim teria chamado Trump de "idiota". Desde então, a Coreia do Norte abandonou formalmente o objetivo de reunificação com o Sul, assinou um pacto de defesa mútua com a Rússia e reconstruiu laços com a China, movimentos que reduziram a influência de Seul como mediadora.
Autoridades sul-coreanas dizem ainda esperar que a aproximação de Trump resulte em diplomacia renovada, mas os acontecimentos desta semana aprofundaram o temor de que Seul seja deixada de fora de decisões com grandes consequências para sua própria defesa. Analistas alertam que Trump pode oferecer a retirada de tropas americanas ou o alívio de sanções para fechar um acordo, sem exigir que o Norte abra mão de seu arsenal nuclear. "Os Estados Unidos simplesmente colheriam os benefícios diplomáticos da cúpula", disse Chung, "enquanto a Coreia do Sul arcaria com todas as consequências de segurança". Como forma de se resguardar, Seul pediu esta semana ajuda ao chanceler chinês Wang Yi, em visita ao país, para estabilizar a península; Wang prometeu que Pequim continuará promovendo a paz, mas sugeriu que Washington e Pyongyang resolvam a cúpula entre si, acrescentando que os EUA deveriam abandonar o que chamou de políticas hostis.
O episódio também expôs tensões dentro da própria aliança entre Estados Unidos e Coreia do Sul. O chanceler Cho Hyun disse a parlamentares na quarta-feira que trabalhará para evitar o enfraquecimento da aliança, embora tenha admitido que Seul foi pega de surpresa pela ordem de Trump. Por sua vez, Trump vinculou a decisão sobre os exercícios a queixas sem relação direta, incluindo a recusa da Coreia do Sul em participar de operações americanas contra o Irã e o ritmo do investimento de US$ 350 bilhões prometido por Seul nos EUA em troca de tarifas menores. Yu Jihoon, do Instituto de Análises de Defesa da Coreia, afirmou que Washington e Seul compartilham objetivos semelhantes, mas alertou que o estilo transacional de Trump corre o risco de corroer lentamente, porém de forma real, a confiança mútua. Uma pesquisa recente do JoongAng Daily em parceria com o East Asia Institute sugere que esse desgaste já está em curso: apenas 45,4% dos sul-coreanos veem hoje os EUA como um parceiro confiável, contra 46% que discordam, e a maioria dos críticos atribui essa percepção à pressão considerada coercitiva dos americanos em comércio, investimentos e defesa.
Onde importa
Cobertura relacionada

China e Coreia do Sul se preparam para cúpula de líderes à margem da APEC em Shenzhen
Chanceler chinês Wang Yi visita Seul em meio a esforço de Trump para retomar diplomacia com a Coreia do Norte
O chanceler chinês Wang Yi chegou a Seul para conversas com o chanceler sul-coreano Cho Hyun, dias depois de Seul e Washington reduzirem exercícios militares conjuntos, enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, sinaliza interesse renovado em dialogar com o líder norte-coreano Kim Jong Un.
China testa abertura com a Coreia do Sul enquanto Trump agita a aliança
A China está enviando seu principal diplomata, Wang Yi, a Seul para explorar tensões na aliança EUA-Coreia do Sul após Washington reduzir exercícios militares conjuntos, segundo a Bloomberg.
