Coreia do Sul abandona política de 'desnuclearização primeiro' em relação ao Norte
Seul agora buscará congelar o programa nuclear norte-coreano em troca de concessões recíprocas, em vez de exigir desarmamento imediato, num momento em que Pyongyang aprofunda laços com Rússia e China.
Seul agora buscará congelar o programa nuclear norte-coreano em troca de concessões recíprocas, em vez de exigir desarmamento imediato, num momento em que Pyongyang aprofunda laços com Rússia e China.
A Coreia do Sul está formalmente recuando de décadas de exigência pela desnuclearização completa e imediata da Coreia do Norte, adotando em seu lugar uma abordagem gradual que começa pelo congelamento do programa de armas de Pyongyang. O ministro da Unificação, Chung Dong-young, apresentou a nova estratégia em 23 de julho, afirmando que o governo buscará concessões recíprocas em troca da interrupção de novos avanços nucleares, em vez de exigir desde já que o Norte abra mão de seu arsenal existente. O presidente Lee Jae Myung descreveu a mudança como um reconhecimento de uma realidade difícil sobre o cenário de segurança da região.
A reformulação ocorre num contexto de aproximação crescente entre Coreia do Norte, Rússia e China. O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy afirmou em 25 de julho que Moscou se preparava para receber cerca de 30 mil soldados norte-coreanos adicionais para reforçar seu esforço de guerra contra a Ucrânia, além das tropas já enviadas. Ao mesmo tempo, a pressão internacional sobre Pyongyang parece cada vez mais fragmentada. O presidente americano Donald Trump tem se referido repetidamente à Coreia do Norte como uma 'potência nuclear', linguagem que rompe com a recusa tradicional de Washington em conceder esse status ao país, mesmo informalmente.
Analistas observam que a mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos não fez nenhuma menção à Coreia do Norte ou à desnuclearização, uma omissão notável em comparação com doutrinas anteriores. Pequim também parece suavizar sua postura pública: quando o presidente chinês Xi Jinping visitou Pyongyang em junho, teria evitado mencionar a desnuclearização, apesar do apoio formal de longa data da China a uma península coreana livre de armas nucleares.
Encorajada por esse clima em transformação, a Coreia do Norte tem se mostrado cada vez mais direta ao rejeitar pedidos de desarmamento. Kim Yo Jong, irmã do líder Kim Jong Un, afirmou em junho que a expansão do arsenal nuclear do país representa uma conclusão irreversível. Nesta semana, ela também descartou uma declaração conjunta do Fórum Regional da ASEAN que pedia desnuclearização, argumentando que o conceito já perdeu qualquer sentido real. Especialistas destacam que Kim Jong Un incorporou o status nuclear do país à constituição, tornando qualquer recuo politicamente custoso para sua liderança.
Pesquisadores afirmam que o custo de manter armas nucleares diminuiu à medida que as sanções internacionais perdem força, em parte porque Pequim e Moscou seriam mais complacentes na fiscalização, ainda que ambos os governos neguem irregularidades. Enquanto isso, as capacidades de Pyongyang continuam crescendo: Kim Jong Un anunciou em junho que a produção de material físsil para armas do país mais que dobrou em cinco anos, e o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) estima que a Coreia do Norte já possua cerca de 60 ogivas, além de material suficiente para produzir pelo menos 30 a mais.
Apesar da postura mais flexível de Seul, especialistas da região permanecem céticos quanto a um retorno próximo de Pyongyang às negociações. Alguns argumentam que a mudança de política é mais simbólica do que substancial, enquanto outros afirmam que Kim Jong Un tem pouco incentivo para dialogar enquanto sua parceria com a Rússia continuar trazendo benefícios estratégicos e econômicos. Autoridades russas, incluindo o chanceler Sergey Lavrov, já declararam publicamente apoio ao direito da Coreia do Norte de manter armas nucleares, reduzindo ainda mais a motivação de Pyongyang para negociar seu arsenal.
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