
Como funciona o poder na Coreia do Norte: Kim Jong Un, o Partido e o Exército
Um novo relatório do Council on Foreign Relations detalha como Kim Jong Un concentrou autoridade em si mesmo e no Partido dos Trabalhadores da Coreia, reformulando o papel do Exército e mantendo a elite sob pressão por meio de purgas periódicas.
Um novo relatório do Council on Foreign Relations detalha como Kim Jong Un concentrou autoridade em si mesmo e no Partido dos Trabalhadores da Coreia, reformulando o papel do Exército e mantendo a elite sob pressão por meio de purgas periódicas.
Há mais de sete décadas a Coreia do Norte é conduzida como uma espécie de empreendimento familiar. O Council on Foreign Relations publicou um relatório atualizado que explica como, sob o líder de terceira geração Kim Jong Un, praticamente toda decisão relevante em Pyongyang ainda remete a um único homem, mesmo que as instituições ao redor dele tenham sido reorganizadas para reforçar esse controle.
A família Kim ocupa o cargo de líder supremo desde que o fundador Kim Il Sung tomou o poder em 1948, sucedido pelo filho Kim Jong Il e, a partir de 2011, pelo neto Kim Jong Un. Segundo o relatório, Kim Jong Un agiu rapidamente após assumir o poder aos 28 anos para colocar aliados em postos-chave, revitalizar o Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC) como centro das decisões políticas e retomar autoridade que facções da elite haviam acumulado no fim do governo de seu pai. Purgas periódicas, como a execução do tio Jang Song Thaek em 2013 e a remoção do ministro da Defesa Hyon Yong Chol em 2015, mantêm a elite em constante alerta. Michael Madden, fundador do site North Korea Leadership Watch, descreve esses episódios como uma forma deliberada de gerar instabilidade no sistema, o que reforça o controle de Kim.
O documento descreve o Comitê Central do PTC, seu Politburo e o Departamento de Orientação Organizacional como os verdadeiros motores da política norte-coreana, com cerca de vinte departamentos subordinados que recebem propostas de órgãos estatais e militares antes da aprovação final. O analista Ken Gause, da organização de pesquisa CNA, observa que exército e partido estão "muito intimamente fundidos", com comissários políticos distribuídos por todo o Exército Popular da Coreia, de cerca de 1,2 milhão de integrantes, garantindo lealdade ao partido e não a comandantes individuais.
Esse equilíbrio entre partido e exército mudou ao longo das décadas. Na era de Kim Jong Il prevalecia a ideologia songun, de primazia militar, mas Kim Jong Un tem trabalhado para subordinar as forças armadas mais firmemente ao partido, tendo substituído três generais seniores em 2018 por comandantes fiéis a ele. O exército ainda administra dezenas de empresas comerciais e ativos econômicos, embora o relatório note que Kim vem transferindo gradualmente alguns setores, como a pesca, do controle militar para a supervisão civil.
Fora da cadeia formal de comando, o relatório destaca um círculo de familiares e cerca de cinquenta famílias da elite, que somam, segundo estimativas, até duas mil pessoas, com controle sobre moeda estrangeira, redes de comércio e acesso à informação. Kim Yo Jong, irmã de Kim Jong Un, ganhou visibilidade pública crescente, participando de cúpulas com líderes estrangeiros e emitindo comunicados em seu próprio nome, o que alimenta especulações sobre seu papel em uma eventual sucessão, junto a outros parentes como a meia-irmã Kim Sol Song e o irmão Kim Jong Chul.
O relatório conclui que o desafio de longo prazo de Kim é equilibrar uma abertura econômica moderada, incluindo maior autonomia para mercados locais e projetos de infraestrutura como resorts de esqui e um novo aeroporto, com o risco de que essa abertura acabe afrouxando seu controle sobre as elites que sustentam o sistema. Segundo analistas, manter a lealdade do partido, do exército e da classe de comerciantes conhecida como donju, enriquecida pelos mercados informais, continuará sendo decisivo para a durabilidade da ordem atual.
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