BREAKINGNegócios Globais·3 min de leitura·Autor: Koreabw

Da Coreia para a Portelinha: como a Doowon está mudando vidas em Piracicaba, cidade brasileira.

Por O Coreano Observador, correspondente da KOREABW para assuntos de empresas coreanas no exterior.

Atualizado em: 22 de jul. de 2026, 17:13 GMT-3
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Por O Coreano Observador, correspondente da KOREABW para assuntos de empresas coreanas no exterior.

Toda vez que visito uma unidade coreana fora da Coreia, faço a mim mesmo a mesma pergunta: o que essa empresa deixa para trás, além dos empregos e dos impostos que gera? Em Piracicaba, no interior do estado de São Paulo, encontrei uma resposta que merece ser contada.

A Doowon, fabricante sul-coreana de autopeças com operações globais e presença consolidada no Brasil, decidiu não se limitar ao papel de investidora industrial. Ao lado da comunidade local, a empresa assumiu um compromisso que muitas multinacionais preferem evitar: olhar diretamente para a desigualdade que cerca sua própria fábrica.

Um bairro, uma missão: A cerca de poucos quilômetros da unidade da Doowon fica o Jardim São Paulo, bairro que abriga a Portelinha, a maior favela de Piracicaba. São aproximadamente 40 mil pessoas vivendo em uma região marcada pelo desemprego, pela criminalidade e pela ausência de infraestrutura básica — muitas casas ali não têm sequer rede de esgoto ou endereço formal reconhecido. É nesse cenário que atua a Casa do Povo, projeto social idealizado pela Associação Comercial e Industrial Brasil e Coreia do Sul (ACIBC), entidade nascida dentro do próprio parque automotivo coreano instalado em Piracicaba, ao lado da Hyundai. A ACIBC não recebe recursos do governo brasileiro. Sua existência depende inteiramente do apoio de empresas parceiras — e é aqui que a Doowon entra como protagonista.

Capacitação como ponte para a dignidade: O apoio da Doowon à Casa do Povo se traduz em cursos profissionalizantes que atacam, cada um à sua maneira, uma faceta diferente da vulnerabilidade social do bairro:

Panificação, um dos cursos mais procurados, atrai principalmente mães de família que buscam uma fonte extra de renda e uma forma prática de diversificar o alimento que chega à mesa de casa. Em uma comunidade onde a informalidade é regra, aprender um ofício que pode virar pequeno negócio é, muitas vezes, a diferença entre a subsistência e a instabilidade.

Computação e inteligência artificial para jovens é talvez o curso mais estratégico do programa. Em um bairro onde a criminalidade se apresenta como caminho mais acessível para muitos adolescentes, oferecer educação tecnológica é oferecer uma rota alternativa —uma chance real de inserção no mercado de trabalho formal, em vez da economia da rua.

Ginástica laboral para a terceira idade completa o tripé, cuidando da população acima de 65 anos, que precisa de acompanhamento de profissionais da saúde para envelhecer com qualidade de vida. É um lembrete de que responsabilidade social não se limita a jovens e mães trabalhadoras: envolve também os mais velhos, frequentemente esquecidos pelas políticas públicas.

O que isso diz sobre a Doowon — e sobre a Coreia no Brasil

Como jornalista que acompanha há anos a trajetória de empresas coreanas mundo afora, tenho visto companhias que tratam a responsabilidade social como item de relações públicas. O caso da Doowon em Piracicaba parece diferente: trata-se de uma parceria sustentada, construída em conjunto com uma associação local que nasceu justamente do ecossistema automotivo coreano na cidade — a ACIBC — e que depende dessa colaboração para sobreviver.

Isso importa porque fala sobre o tipo de presença que empresas coreanas podem ter fora de casa. Piracicaba se tornou, nos últimos anos, um dos polos mais relevantes de investimento sul-coreano no Brasil, com a chegada da Hyundai e de sua cadeia de fornecedores. A Doowon, ao direcionar parte de seu compromisso social para a comunidade mais vulnerável ao redor dessa cadeia produtiva, mostra que o investimento coreano pode significar mais do que fábricas e empregos diretos — pode significar também investimento em capital humano, em segurança e em dignidade para quem vive à margem do desenvolvimento industrial que essas mesmas empresas ajudam a construir.

A ausência de apoio governamental à Casa do Povo torna o gesto da Doowon ainda mais significativo. Sem o subsídio de empresas parceiras, o projeto simplesmente não existiria —e milhares de pessoas na Portelinha perderiam uma das poucas pontes reais entre a pobreza e a oportunidade.

Fica o registro, e o convite para que outras empresas coreanas instaladas no Brasil observem de perto essa iniciativa. Não é apenas uma boa história para contar — é um modelo replicável de como o capital coreano pode se enraizar de forma responsável em comunidades que mais precisam dele.

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